Durante toda a minha vida foi assim que me portei. Mudança de cidade, novas amizades, mudar a mobília, a cor do cabelo, o modo de vestir, a rotina, mudar até mesmo a folha do calendário ou de canal. Enjoei de algo? Mudei! Cansei de assistir esse canal? Troquei. Fulaninha não me serve mais? Deixei. Todo momento em que me sinto vazia a primeira opção é sempre mudar. Mas porquê?
Mudar cansa! Mudar assusta, desacomoda, faz sentir falta, saudade, dor, e, até mesmo, medo. Imagine que você mudou de cidade, para um lugar menos desenvolvido que o seu de origem. As primeiras semanas são um saco. Então, porque não melhorou seu emprego, seu apartamento, suas companhias, sua vida? Inúmeras mudanças externas, quando na verdade, a faxina deveria ser lá dentro, no intocável, para melhorar tudo o que não convém. Melhorar reanima, revigora, rejuvenesce, traz de volta aquele sorriso nostálgico, a pureza e as boas lembranças.
Mudar é deixar de se sentir completo. É deixar pra trás os problemas esquecendo que, um dia, toda a dor vêm a tona. "Troquei de cidade" "Aé? Mudou?" "Não, melhorei!". "Desistiu da faculdade é... Mudou?" "Não, troquei porque melhorei!". "Você viu que ele mudou de namorada?" "Não, só vi que com essa nova ele melhorou!". A vida nos convida a passear por ela, descobrindo, a cada dia, em cada calçada, formas de estar melhor, viver melhor, ser melhor.
É da nossa natureza darmos valor ao que não se possui. E isso nem Freud explica. Cansei? Joguei fora. Maldita obsolescência do século XXI... Meus avós contam que
A realidade tem preguiça de se dedicar a melhorar, quando se pode, simplesmente, jogar fora, mudar. Mas, quem sabe um dia a gente aprenda a colocar fé de verdade, a melhorar o que se tem e o que se é, aceitando as vírgulas, deixando de se perder nas reticências, e evitando, se possível, um ponto final.